o que é e o que se pretende com a agroecologia?

AGROECOLOGIA: MODO DE VIDA DIGNA ENRAIZADA NA CULTURA E NA PAISAGEM DOS TERRITÓRIOS

Actualmente a palavra Agroecologia é sobretudo usada para descrever o modo de vida das populações locais, muitas delas com ligações ancestrais simbióticas aos territórios que habitam, cujas práticas agrícolas, culturais e espirituais ajudaram a manter.

É também o nome do movimento social que reclama o direito destas populações de manterem o seu modo de vida ecológico, sejam elas comunidades indígenas ou tradicionais, agrícolas, pastoris ou piscatórias. Isto sem esquecer as famílias neo-rurais que desejam retomar estes modos de vida. 

Com um projecto de dignidade, solidariedade e equidade, o movimento social da Agroecologia sublinha a necessidade de justiça entre classes sociais, géneros e culturas, clamando-se feminista e anticolonialista, a favor de um equilíbrio Norte-Sul.

Quinta Maravilha, 2020. Fotografia Sara Baga

UM POUCO DE HISTÓRIA

A Agroecologia começou por se estabelecer como uma disciplina científica, que estuda as relações ecológicas na actividade agrícola, estabelecendo-se numa zona com determinadas características agroecológicas, com o foco ao nível da quinta e do seu agroecossistema. A unidade agrícola passou a ser vista e estudada como um sistema, com relações e interdependências entre as dimensões ecológicas, sociais e políticas. Isto é, e de uma forma simples, as práticas agrícolas dependem não só das características das paisagens, como também das escolhas das pessoas que nelas intervêm, que por sua vez são influenciadas pelo conhecimento e crenças tradicionais e a cultura do povo a que pertencem e pelo contexto das políticas dos governos onde se inserem e da influência internacional de acordos económicos.

Com o desenvolvimento desta disicplina e ao estudar a unidade agrícola como um sistema, ficou visível como os povos indígenas e tradicionais têm práticas agroecológicas, ao terem desenvolvido um modo de vida integrado nas paisagens, a que contribuem para manter e regenerar, numa relação simbiótica.

As culturas camponesas são assim reconhecidas como produtoras e guardiãs de conhecimento com práticas de investigação informal agrícola, reunido por sua vez num sistema de conhecimento com o qual a academia tem muito a aprender. Estabelecem-se assim as bases da investigação transdisciplinar e participativa, que permite o diálogo entre agricultores e investigadores e a sua influência mútua.

Ficou também claro como essas práticas têm sofrido uma grande erosão, maior nos países industrializados, onde a Revolução Verde avançou em força nos anos 1960, encorajada pelas políticas dos governos para a modernização das práticas agrícolas, com o sonho de aumentar drasticamente a quantidade da produção alimentar para acabar com a fome. O problema da fome, sabe-se entretanto, é sobretudo uma questão de distribuição alimentar e acesso mais do que de produção. 

Este processo de intensificação da produção alimentar começou com uma fase de aumento da área agrícola, em particular com a desflorestação e o roubo de terras a comunidades indígenas, e estabeleceu-se com a industrialização dos modos de produção agrícola, alterando radicalmente as práticas agrícolas, resultando numa grande dependência das energias fósseis, água e terra.

Além da erosão das práticas e a perda do conhecimento da produção ecológica alimentar, muitas famílias perderam o acesso à terra e a um modo de vida auto-suficiente, passando a ser assalariadas, no campo ou na urbe, com a consequente diminuição de condições de vida e de soberania.

O uso de uma mão cheia de variedades de sementes híbridas produzidas pela agroindústria substituiu a incalculável quantidade de variedades de sementes tradicionais. As paisagens mosaico foram substituídas pelos extensos campos de monocultura, destruindo as sebes de separação com os seus nichos para inúmeras espécies úteis ao controlo de infestantes. Estes campos eram muito mais fáceis de manobrar pelas grandes máquinas agrícolas, eliminando a necessidade da mão de obra humana e da tracção animal. Com o aumento da escala das unidades agrícolas, o fim das sebes e das práticas de regeneração usando a adubação, a rotação de culturas úteis, pousio e estrume animal, generalizou-se o uso de fertilizantes herbicidas e pesticidas obtidos por síntese química do petróleo e outros componentes. O uso permanente de irrigação é outra característica da Revolução Verde, implicando não só o abuso de um recurso essencial como a sua poluição com o uso de fitofármacos e fertilizantes.

O processo de intensificação continua, agora com a chamada “intensificação sustentável”, pois o problema da fome persiste e o aumento esperado da população humana em conjugação com as consequências das alterações climáticas na diminuição da terra produtiva é uma preocupação real.

Entretanto há quem use a Agroecologia como apenas mais um pacote tecnológico para uma nova forma de fazer agricultura industrial, segundo princípios ecológicos, com o fim de regenerar os solos, mantendo a finalidade industrialista de aumentar a produção, desta vez sem aumentar o uso de terra nem de práticas poluentes.

Quem vise desta forma apenas a unidade agrícola, fazendo a mera substituição dos factores de produção químicos por factores biológicos, pode considerar que está a praticar agroecologia. Mas depressa chegamos à conclusão que a mera substituição de insumos não resolve os problemas criados pelas monoculturas e o sistema industrial.

É aplicando uma perspectiva mais crítica que nos damos conta da relação entre a industrialização do sector agrícola e os graves problemas que os sistemas alimentares modernos enfrentam: a erosão das práticas agroecológicas tradicionais, o despossessamento das terras, o desmembramento e empobrecimento cultural e económico das famílias, o despovoamento dos territórios, o êxodo rural e concentração suburbana, a precariedade laboral, a desflorestação, a perda de biodiversidade, a poluição das águas e das terras, o aumento de gases com efeito de estufa, a contribuição para as alterações climáticas e a diminuição da produção alimentar dos campos em monocultura.

Quinta Maravilha, 2020. Fotografia Sara Baga

AGROECOLOGIA E A ECOLOGIA DOS SISTEMAS ALIMENTARES

O entendimento sobre agroecologia tem evoluído para uma visão mais sistémica:  visa o estudo da totalidade das interrelações entre todos os elementos relacionados com a alimentação humana, desde o prado ao prato, incluindo todas as fases da cadeia de comercialização, bem como os contextos que a determinam. Este estudo das relações dos sistemas alimentares engloba os seus mecanismos de reforço ou inibição de processos nos vários sistemas que o compõem, como o sistema quinta ou o ecossistema do território, e de que faz parte, como o sistema político ou o ecosistema planetário, influenciando e sendo influenciado.

Actualmente afirma-se como a ciência que aplica princípios e conceitos ecológicos no desenho e gestão da agricultura e sistemas alimentares sustentáveis. Integra a pesquisa, educação, acção e mudança que trazem sustentabilidade a todas as partes do sistema alimentar: ecológica; económica; social; e cultural. 

É ainda transdisciplinar no sentido em que valoriza todos os tipos de conhecimento e experiências na mudança do sistema alimentar. A Agroecologia reconhece a validade dos sistemas de conhecimento não académicos, como o tradicional, empírico, experimental, local, e indígena. E admite e encoraja o diálogo de culturas e sistemas de conhecimento (ex: ocidental e ameríndio). 

É participativa no sentido em que requer o envolvimento de todxs xs actores chave, desde a quinta até ao prato. A Agroecologia inclui todas as pessoas envolvidas no processo de criação de conhecimento – que no campo agrícola podem ser comunidades agrícolas, trabalhadores rurais, agricultores familiares e organizações locais. Os conhecimentos gerados beneficiarão tanto quem investiga como quem os põe em prática. 

E por fim, é orientada para a acção porque confronta as estruturas de poder económico e político do sistema alimentar industrial com estruturas sociais alternativas e políticas de acção, numa tentativa de resolver os problemas concretos das pessoas e agroecossistemas. 

Esta apróximação está alicerçada no pensamento ecológico e requer uma compreensão holística e sistémica da sustentabilidade do sistema alimentar.

Quinta Maravilha, 2020. Fotografia Sara Baga

AGROECOLOGIA: CIÊNCIA, PRÁTICA E MOVIMENTO SOCIAL

A Agroecologia não compreende uma série de instruções técnicas, mas sim princípios que podem ser aplicados em diversos contextos. Habitualmente a Agroecologia é vista como tendo três facetas principais: Agroecologia como ciência, Agroecologia como prática e Agroecologia como um movimento social.

A Agroecologia como ciência procura as bases científicas das relações ecológicas entre as diferentes componentes do agroecossistema. Por exemplo: como as diferentes plantas interagem entre si, como as plantas interagem com os animais domésticos e selvagens, etc.

A Agroecologia como prática representa o interface de contacto entre os seres humanos e os agroecossistemas. Pode dizer-se que tem por base os sistemas tradicionais de gestão da terra combinados com conhecimentos científicos actuais da ecologia e agronomia.

A Agroecologia é também um movimento social porque admite que para mudar o sistema alimentar é necessário exercer pressão política. A agroecologia defende os direitos humanos em geral e em partícular das mulheres, indígenas e jovens, a soberania alimentar e justiça climática. Luta ainda contra o controlo do sistema alimentar por parte de grandes empresas multinacionais e tratados de comércio livre da OMC e FMI. A agroecologia acredita na autodeterminação dos povos e na necessidade de deixar as comunidades locais escolher os caminhos de desenvolvimento que as vão afectar.

Fontes

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Grupo de Acção e Intervenção Ambiental