A vida nos acampamentos indígenas à beira da estrada

25 de Agosto—Estamos perto da fronteira do Paraguay, em Mato Grosso do Sul, Brasil. Nesta região, a população das etnias Guarani e Kaiowa que tenta sobreviver em acampamentos improvisados à beira das estradas ultrapassa as 14.000 pessoas.

Foram expulsas das suas terras de origem numa região onde a floresta ao longo do último século, por meio de um processo de desmatamento feroz, deu lugar às explorações da indústria agro-alimentar, onde massivamente se produz soja OGM, cana para etanol, milho transgénico, eucalipto e gado.

Desprotegidas de todas as formas, estas pessoas tentam abrigar-se em estruturas rudimentares feitas de paus de madeira cobertos com plástico.

Esperam um dia poderem recuperar as suas terras. Mas a cada dia a miséria corrói a todos os níveis: sem ter que comer muitas vezes, adoecem de desnutrição e, por não poderem aceder a nenhuma fonte de água potável, bebem a água de ribeiros contaminados com pesticidas e herbicidas das grandes produções latifundiárias agro-industriais que os cercam.

Como se não bastassem a fome e o envenenamento por águas contaminadas, com as suas sequelas ao nível de saúde, enfrentam a morte todos os dias, seja por atropelamento pelos camiões ou pelos ataques de disparos por parte de milícias armadas. O profundo racismo contra a população indígena deslocalizada e fragilizada manifesta-se e concretiza-se em todos estes actos violentos. Calcula-se que alguns dos atropelamentos sejam intencionais enquanto os assassinatos de indígenas são frequentes e impunes.

Damiana mostrou-nos um cartaz com os “seus mortos” e acompanhou-nos ao acampamento. Ao longe avistamos a sua terra de origem, ocupada pelo agronegócio que dispõe de protecção policial para evitar que a sua família se aproxime e tente aceder ao terreno.

Na estrada, uma placa verde anuncia sem ironia ‘População indígena a 1 km’. Uma verdade cruelmente paradoxal, pois a população indígena encontra-se de facto passado um kilómetro, mas vive agora na berma sem poder aceder ao seu território ancestral.

Texto e fotografias: Sara Baga​, observadora da rede europeia de apoio aos Guarani e Kaiowa

Grupo de Acção e Intervenção Ambiental