Artigo do blog http://ingenea.pegada.net
Num discurso totalmente anacrónico, o Secretário-Geral da ONU
anunciou hoje, na abertura da cimeira sobre segurança alimentar que
decorre em Roma, promovida pela Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e Agricultura (FAO) que a solução para a crise alimentar
global passa por um aumento da produção de alimentos. Como se pode ler
no artigo do Público,
«a comunidade internacional deve apoiar os países que estão a ajudar os
seus agricultores fornecendo-lhes sementes e fertilizantes, os dois
factores de produção que mais repercutiram o aumento do preço do
petróleo».
Este discurso assente na lógica produtivista apresenta dois
problemas essenciais: por um lado não leva em consideração os
principais factores de aumento dos preços dos alimentos; por outro lado
promove uma solução baseada na produtividade e no apoio por “países
desenvolvidos” que pode agravar o problema da fome e da subsistência
das populações do Sul. Hoje começo por analisar o problema do aumento
do preço dos alimentos.
O aumento do preço dos alimentos
Os principais factores de aumento dos preços dos alimentos parecem
passar pela crescente procura de matérias primas assentes no uso do
solo, por estratégias de especulação financeira e pela subida dos
preços do petróleo, na opinião de vários analistas. Todos estes
factores parecem convergir e interagir numa cadeia de interesses
económicos e corporativos que passo a descrever.
O crescimento da procura de alimentos aparece relacionado com o
consumo crescente nos países asiáticos de duas formas. Por um lado
temos o crescimento populacional que contribui para o aumento do
consumo total - e que aqui se reflecte também num aumento directo das
necessidades endoenergéticas. Por outro lado, existe uma
“ocidentalização” dos hábitos alimentares, com um aumento exponencial
do consumo de carne em países que sempre tiveram uma dieta largamente
vegetariana, contribuindo para um maior consumo per capita de cereais,
usado para alimentar os animais. É importante distinguir ambas as
exigências alimentares - um mau diagnóstico conduz geralmente a uma má
solução. De um lado estão as necessidades alimentares básicas de uma
população. Do outro está o resultado da exportação (ou mesmo imposição)
de um modelo cultural e económico que faz disparar o consumo em
sociedades que se mantiveram em equilíbrio durante milénios.
Outro factor que contribui para o aumento da procura é o súbito
interesse nos biocombustíveis, que prefiro designar por
agrocombustíveis no caso concreto da utilização de cultivos
especificamente criados para fins energéticos. Este interesse vem
motivado pela constante subida do preço do petróleo, em parte resultado
dos conflitos e da escassez associada ao pico do petróleo, mas para o
qual contribuem também mecanismos especulativos. Ora, os
agrocombustíveis, ao criarem uma mais valia para um determinado uso do
solo, vão necessariamente entrar em competição com usos para fins
alimentares. Isso não tem nada que ver, como o presidente Lula e outros apóstolos nos querem fazer acreditar,
com o facto de estarmos a falar de cultivos alimentares ou de cultivos
com maior ou menor eficiência energética na produção de
agrocombustíveis. O principal problema dos agrocombustíveis é que criam
mais um factor de exclusão dos agricultores de subsistência e outros
pequenos agricultores. Essa é aliás uma das principais conclusões de um relatório da FAO apresentado na cimeira, intitulado “Alimentando a exclusão? O ‘boom’ dos biocombustíveis e o acesso dos pobres à terra”.
Nada disto é novidade. Já assistimos a este tipo de dinâmicas desde
há vários séculos quando o colonialismo permitiu que os impérios se
apropriassem das melhores terras para o cultivo de cana-de-açúcar,
cacau e café. Daí resultou a expulsão ou aniquilação de povos indígenas
dos seus territórios ancestrais. Estes fenómenos continuaram até aos
dias de hoje, onde temos o exemplo da soja, a alargar as suas
fronteiras na Amazónia e a ocupar as melhores áreas de cultivo para
abastecer os grandes consumidores de carne da Europa e da América do
Norte. Também em Portugal este tipo de dinâmica teve lugar quando, duas
décadas atrás, as empresas do sector da pasta e do papel, motivadas
pelo aumento da procura de papel nos mercados internacionais e por
subsídios à actividade, tentaram alugar ou adquirir todo o tipo de
terras para a produção de eucalipto, criando vários conflitos com as
populações locais, em particular com os pequenos agricultores e
camponeses.
Sobre os factores de especulação dos mercados alimentares, tudo
parece estar ligado a uma grande manobra do crescente complexo
agro-industrial e energético, formado por empresas tais como a Monsanto, a DuPont-Pioneer, a Bayer, a Syngenta
e a BP. É também importante notar que alguns dos principais mercados
especulativos são os da energia. A questão dos agrocombustíveis não
pode ser dissociado desta dinâmica. Porquê? Porque ao tornar os
mercados agrícolas parte dos mercados energéticos, é evidente que
passam a estar sujeitos às mesmas incontroláveis pressões financeiras
que os investidores já exerciam sobre outras matérias primas com usos
exoenergéticos. A subida de preços do petróleo abre caminho para o
apoio político aos agrocombustíveis. E com a subida do preço dos
alimentos, as empresas da agro-biotecnologia aproveitam o campo do
desespero para profetizar as alegadas (mas não verificadas) altas
produtividades dos transgénicos.
Se dúvidas subsistem sobre esta convergência de esforços do complexo agro-industrial-energético, sugiro uma visita ao site da BP DuPont BioFuels,
que junta uma das maiores empresas químicas e agro-químicas, que
adquiriu a maior empresa de sementes do mundo, incluindo transgénicas -
a Pioneer, com uma das maiores petrolíferas. O objectivo é a produção
de biobutanol em grande escala. No horizonte prevê-se a utilização de
bactérias geneticamente modificadas no processo de degradação
celulósica - parte da tão afamada segunda geração de biocombustíveis.
Comentários recentes
1 dia 16 horas atrás
2 dias 3 horas atrás
2 dias 11 horas atrás
2 dias 18 horas atrás
3 dias 3 horas atrás
5 dias 17 horas atrás
6 dias 12 horas atrás
1 semana 3 dias atrás
1 semana 5 dias atrás
1 semana 5 dias atrás