Relato da Seed Savers Tour 2011

 

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Relato da Seed Savers Tour 2011

4 a 13 de Novembro, de Austrália para o Algarve, Alentejo, Lisboa e Coimbra!

Durante a visita de 10 dias a Portugal, Michel e Jude Fanton, os fundadores da rede australiana de guardiões de sementes Seed Savers Network, partilharam conhecimentos, experiências e histórias sobre sementes com mais de 400 horticultores, permacultores e aspirantes portugueses, mais ou menos experientes, em eventos no Algarve, Alentejo, Lisboa e Coimbra.

sao bras

No Algarve, a partilha decorreu no “Encontro da Semente”, iniciativa anual da Colher para Semear, onde cerca de 40 pessoas assistiram ao filme dos Seed Savers “Our Seeds / As Nossas Sementes” (1), seguido de uma conversa com os produtores e o coordenador da Colher para Semear, José Miguel Fonseca, em que o público participou entusiasticamente, com dúvidas práticas acerca da preservação de sementes e variedades tradicionais e a recuperação do património fitogenético português. Os sócios da Colher para Semear, a maioria horticultores, fruticultores ou agricultores, partilharam ainda as suas experiências e histórias na propagação de plantas comestíveis, com ênfase no cultivo de árvores de fruto, um dos temas fortes deste Encontro.

Foi salientado que é preciso olhar para as técnicas utilizadas na agricultura com sentido crítico, nem tudo o que é antigo é bom e nem tudo o que é novo é mau. Um exemplo referido foi a técnica da enxertia (principalmente em árvores de fruto), que, apesar de ser uma técnica ancestral, tem alguns riscos por não promover a variabilidade das espécies: trata-se da propagação de plantas geneticamente iguais e por isso vulneráveis a condições extremas e a doenças.

fbaul

Em Lisboa, o filme dos Seed Savers foi projectado no anfiteatro da Faculdade de Belas Artes, com a presença de aproximadamente 60 pessoas. O filme foi seguido de um debate com a presença das guardiãs de sementes portuguesas Sílvia Floresta (silvicultura), Fernanda Botelho (plantas medicinais) e Joana Brehm (Banco de Germoplasma do Jardim Botânico de Lisboa).

Aqui foi abordada a questão da preservação de sementes in situ, ou seja, na terra, por oposição ao seu fecho em bancos de sementes. Nas palavras de Michel Fanton, estes não passam de “cemitérios de sementes”, porque a taxa de viabilidade das sementes vai diminuindo ao longo do tempo e porque as sementes só conseguem adaptar-se às condições locais de solo e clima se forem continuamente cultivadas.

horta do monte

Ainda em Lisboa, os Fanton partilharam a sua experiência na criação de hortas e de redes de troca de sementes e na prática de recolher, preservar e resemear sementes na eco-escola Casa Verdes Anos e na Horta do Monte, uma horta comunitária na Graça, na presença de dezenas de “hortelões urbanos” ávidos por mais conhecimentos.

Em ambos os locais, depois de uma dinâmica para os participantes se conhecerem e se sintonizarem com o objectivo da oficina, foi dada uma visita à horta, com os Fanton a convidar os participantes a ver este “ecossistema em miniatura” com olhos diferentes. Os participantes foram desafiados a identificar as plantas que viam, a distinguir as plantas perenes das plantas anuais, os machos das fêmeas e as plantas de auto-propagação das plantas que precisam de uma ajuda. O casal Fanton apresentou as várias estratégias para guardar sementes e na oficina da Horta do Monte, houve oportunidade para uma demonstração prática de recolha, extracção e troca de sementes. Na oficina da Casa Verdes Anos, a ênfase foi nas estratégias de criação de hortas em escolas e do ensino da agrobiodiversidade às crianças (2).

As principais dúvidas reveladas pelos participantes prenderam-se com as dificuldades no acesso às sementes e nas técnicas de recolha e cultivo de sementes, principalmente para os mais jovens. Notou-se como a passagem dos conhecimentos tradicionais em matéria de horticultura de geração em geração foi interrompida com o êxodo urbano em Portugal e com a comoditização das sementes. Os peritos científicos e “profanos” presentes nas sessões frisaram a urgência em recuperar os conhecimentos tradicionais que ainda persistem e em retomar a preservação e o cultivo de sementes. Apesar de nas primeiras tentativas de resemear sementes a taxa de sucesso não ser muito alta, com a prática continuada afina-se a técnica e o horticultor acaba por conquistar a sua auto-suficiência.

jardim bot

Em Coimbra, os Seed Savers repetiram a oficina de preservação de sementes na Horta do Jardim Botânico, na presença de 25 participantes e com a co-facilitação de mais dois peritos na curadoria de sementes (Arménio Matos, curador de sementes do Jardim Botânico e Alexandre Silva, técnico do Centro de Interpretação da Serra da Estrela). A velha sala do banco de sementes do Jardim Botânico ofereceu um ambiente propício à discussão da importância das sementes tradicionais e à aprendizagem sobre a extracção de sementes, a sua conservação e até sobre métodos de germinação menos convencionais.

A esta oficina, mais focada na prática do cultivo de sementes, seguiu-se outra que procurou juntar a temática das sementes com o aproximar da hora do jantar: a utilização das sementes na culinária. O grupo de cerca de 30 participantes teve a oportunidade de ver as sementes numa outra perspectiva e de as saborear em coloridas e deliciosas combinações de batidos de frutas, vegetais e sementes preparadas pela facilitadora principal, Annelieke van der Sluijs. Após a prova de batidos, o grupo seguiu para a cozinha para se juntar aos Seed Savers Jude e Michel Fanton para a segunda parte da oficina de culinária: a preparação de um exótico caril, confeccionado de raiz com ingredientes do Jardim Botânico de Coimbra. Afinal este pó amarelado vindo de terras distantes pode ser preparado com ingredientes maioritariamente locais à mão de semear.

Os participantes inquiridos sobre a sua experiência nas oficinas, referiram sobretudo que foi com choque e surpresa que tomaram conhecimento da tendência para a privatização das sementes na Europa e no mundo e das consequências da comoditização das sementes para o futuro da agricultura e da humanidade.

Também em Coimbra foi mostrado o filme “As Nossas Sementes”, complementado com um debate com a presença de cerca de 40 pessoas e vários convidados especiais para falar sobre a temática das sementes (os facilitadores das oficinas no Jardim Botânico, representantes da Campanha pelas Sementes Livres e Pedro Moreira da Escola Agrária de Coimbra). Do debate muito participado sobressaiu novamente a urgência em manter as sementes em circulação. As sementes tradicionais deverão ser distribuídas pelos solos de cada agricultor e agricultora, mantendo assim viva a herança de milhares de anos de selecção e adaptação pacientes à complexa diversidade de solos, climas e culturas que compõem o mosaico sócio-ecológico da humanidade.

perma intro

A Seed Savers Tour foi concluída em grande no Jardim Botânico de Coimbra com um Curso de Introdução à Permacultura dedicado à Semente. O facilitador principal, Maurício Umann, do projecto de permacultura O Fojo, dividiu os módulos habituais do curso com os Fanton e outros facilitadores espontâneos com conhecimentos específicos. Os primeiros partilharam a sua experiência na cura de solos, produção de composto e preservação de sementes, enquanto os segundos proporcionaram uma oportunidade de religação à natureza, num passeio guiado pela vegetação rica e diversa do Jardim Botânico.

A noite de Sábado foi ainda dedicada a um debate estruturado com peritos “profanos” e participantes leigos sobre o estado actual da agricultura e alimentação, procurando identificar em conjunto a ligação entre os problemas assinalados e gerando ideias para a sua solução.

perma intro group

A Seed Savers Tour superou as expectativas das entidades envolvidas: conseguiu ser mais do que uma sensibilização às ameaças que a humanidade enfrenta na agricultura e alimentação e à importância de defendermos a nossa herança fitogenética. Com mais de 400 participantes activos e contributivos nas cerca de 11 sessões, a digressão acabou por transformar-se numa aprendizagem social.

Uma das lições retidas foi que é essencial que nos voltemos a ligar à terra, que procuremos estar atentos à natureza, onde quer que estejamos: numa horta, num jardim, na floresta, à beira da estrada, há sempre matéria prima para utilizar, reproduzir ou preservar. A natureza é generosa, se a observarmos e respeitarmos, teremos todas as condições para continuar a produzir os nossos alimentos indefinidamente.

A outra lição é que, num clima de crescente apropriação dos recursos genéticos por corporações, preservar a semente, outrora uma prática comum, é hoje um acto político. A melhor maneira de combater a erosão e a privatização genéticas é de continuar a semear, colher e voltar a semear, partilhando livremente as nossas sementes, não esquecendo os conhecimentos agrícolas, culturais e gastronómicos que lhes estão associados.

Videos da Tour

O que se passa com as sementes?

Free the seeds in Portugal

Free local seeds to all

Why food plants disappear in Portugal

The future of seeds and food

Reportagem da Biosfera sobre Sementes Livres

 

Notas

(1) Documentário "As Nossas Sementes": Título original: "Our Seeds: Seeds Blong Yumi"; Ano: 2008; Duração: 57 min; Falado em inglês, legendado em português; Realização: Seedsavers; Produtores: Michel e Jude Fanton; Resumo: Um filme que celebra os guardiões de sementes, os agricultores e hortelões que preservam e partilham a fonte da nossa herança alimentar diversa. Filmado em onze países com vinte grupos tribais, “As Nossas Sementes” mostra que as ameaças à saúde e qualidade alimentar têm soluções locais.

(2) Apresentação “Seed Savers School garden”, versão portuguesa, disponível aqui.

Comentários

Fico mesmo contente com terem

Fico mesmo contente com terem ocorrido todas estas iniciativas!

Eu localmente também contribuo todos os dias.
Tive mesmo muita pena de não ter podido ir ao Algarve... falhei este encontro que pelo que vejo foi muito bom, como são todos....

Liliana Pinto
AGRINEMUS