
Um grupo de jovens ambientalistas do GAIA viajou até Copenhaga, onde decorre a 15ª Conferência das Partes (COP15) sobre o clima. As activistas criticam a falta de legitimidade deste espaço de decisão, que não só tem sido totalmente ineficaz na redução de emissões de carbono, como tem acentuado as injustiças sociais através de mecanismos de mercado e outros esquemas tipicamente colonialistas. Vão tomar parte nos protestos para bloquear a cimeira e iniciar novos processos de base, que possam abrir caminho para uma verdadeira justiça climática.
Quem somos?
Consideramo-nos pessoas sensibilizadas e conscientes dos problemas sociais, ambientais e espirituais globais, de tal forma que em vez de nos dispomos a sucumbir ao individualismo, acreditamos na força colectiva e partilhada.
Tudo o que sabemos faz-nos olhar para o sistema capitalista, com que crescemos, como a raiz dos problemas na nossa sociedade. Um simples exemplo é a correlação entre a última crise económica, durante a qual houve uma diminuição de produção e a diminuição de três por cento de emissões de CO2 a nível global. A este exemplo se juntam mais, que nos obrigam a desconstruir o mito do progresso e do crescimento económico constante, sem tomar em conta os limites do nosso próprio planeta.
Porquê?
Acreditamos que podemos ter uma boa influência no que se vai passar nas ruas de Copenhaga. Como indivíduos isolados não temos grande voz, mas se juntarmos todas as vozes reclamando decisões comprometedoras, podemos gritar até nos escutarem no Bella Center, o centro onde os políticos mais poderosos decidem do futuro do nosso clima. Somos elementos integrantes dos Ritmos de Resistência (internacional | Lisboa) e do Exército Clandestino Insurgente de Palhaços Rebeldes, duas redes internacionais que usam a frivolidade táctica, inspirada no carnaval, para confrontar e criticar sistemas de dominação e apoiar todos os que lutam contra a exploração e a opressão.
Não queremos passar o Natal numa cela, pois não é nesse ambiente que nos sentimos em casa; estas manifestações poderão ser perigosas, pois as autoridades tudo farão para proteger a elite governante e o status quo, mas as alterações climáticas JÁ SÃO PERIGOSAS. Por isso, estar aqui é plenamente justificado.
Como chegámos aqui?
Os transportes estão na raiz do debate sobre as alterações climáticas, em particular na Cimeira de Copenhaga, porque o contributo para as emissões de indústrias altamente emissoras como a aviação ou transporte marítimo não estão incluídas nos tratados. Escolhemos deslocar-nos deliberadamente de uma forma sem emissões adicionais de CO2, pedindo boleia a camionistas e particulares que íam em direcção de Copenhaga.
Qual é a nossa posição?
Queremos delegitimizar as negociações a partir do topo, dado que, como mostram os últimos 14 anos (a Cimeira da Terra, de onde saiu a Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, teve lugar em 1992), não conseguiram reduzir as emissões de carbono, bem pelo contrário.
Pelo menos 300 000 pessoas morreram já por causas relacionadas com as alterações climáticas. No que ameaca ser o acto de extinção em massa mais relevante do período corrente, são mais uma vez as pessoas que tiveram má sorte de nascer em países do Sul global que serão mais afectadas. Para além disto, as decisões já tomadas nas últimas 14 COPs, não têm contribuído em nada para uma verdadeira justiça climática – pelo contrário, vêm pejados de um colonialismo asqueroso, da ideia de que temos que ajudar os países pobres a reduzir as nossas emissões com as nossas magníficas tecnologias (as mesmas que nos ajudam a ser tão eficientes que temos emissões per capita várias vezes superiores a esses países!).
Os culpáveis da presente crise climática compram direitos de emissões de carbono (chama-se “offset”) aos países que, devido a um menor desenvolvimento industrial, não têm tantas emissões. Um esquema não muito distinto das indulgências medievais adquiridas pelos fiéis para os livrar dos seus pecados. Noutros casos, limpam a sua consciência plantando eucaliptos clonados ou geneticamente manipulados, nefastos para os ecosistemas locais e para os indígenas em países como o Brasil (para mais informações sobre este programa de “reflorestacão” conhecido como REDD, ver http://www.natbrasil.org.br/).
Não queremos apenas criticar, mas também sensibilizar cada cidadão deste planeta. Apesar das gotas insignificantes que cada um de nós constitui, somos capazes de ajudar a preservar o que resta do equilíbrio dos nossos sistemas ecológicos e sociais, introduzindo pequenas mudanças na sua vida diária.
Contactos para mais informações:
Ariana Jordão - 00351 91 554 39 09
Aleksandra Vercauteren - 0032 485 86 79 50
Comentários
Sarah Palin publicou esta
Sarah Palin publicou esta semana um artigo de opinião no Washington Post, republicado pelo Guardian, onde argumenta que se deveria boicotar a conferência de Copenhaga. Ainda que os seus argumentos para descrever o porquê de tal coisa sejam obviamente opostos aos do GAIA, é de estranhar que entidades com ideais absolutamente opostos estejam de acordo acerca desta matéria.
Parece-me completamente irresponsável que movimentos com tão vasta experiência na defesa dos direitos dos mais desprotegidos, do ambiente e de, em geral, tudo o que vale a pena ser defendido, se desloquem a Copenhaga para "delegitimizar as negociações". A COP15 foi organizada para combater as alterações climáticas. Pergunta-se: o GAIA não quer que se combata as alterações climáticas? Resposta: claro que sim. No entanto, utilizam o método errado ao considerarem que existe uma opção mais eficiente que uma conferência onde está representada a maior parte das nações e onde se pode discutir "mano a mano" uma solução global para o problema. Solução apresentada neste post: nenhuma. Faz-se a apologia do contra pelo contra, considera-se que qualquer esforço que seja feito por entidades que representam o poder é inválido e que, logo, deve ser considerado como mais uma ferramenta que a máquina capitalista vai utilizar para nos espremer. Parece-me uma visão demasiado simplista desta sociedade que, ainda que muitas vezes nos desiluda, continua a ser aquela em que vivemos. Tem de ser no seio desta e das suas regras actuais que uma solução para os problemas ambientais seja esculpida.
É claro que um acordo que saia da COP15 não será perfeito, longe disso. No entanto, será muito mais do que temos agora e não me parece que seja realista considerar que devemos primeiro acabar com a sociedade do capital e, depois, pensar no aquecimento global. É bastante mais provável que o capitalismo ainda cá esteja quando estivermos a lutar por manter a nossa cabeça acima da água que o contrário.
"Consideramo-nos representantes de uma nova classe emergente; educadas ao nível de mestrado, sensibilizadas com uma tal consciência dos problemas sociais, ambientais e espirituais globais que não nos dispomos a sucumbir ao individualismo."
Infelizmente, a mim, não me representam.
Paulo
Caro Paulo, Não tendo tempo
Caro Paulo,
Não tendo tempo para desenvolver mais, limito-me a fazer um copy paste do editorial do Indymedia Portugal sobre o tema, para o qual também contribuí. Como verá, se explorar bem a questão e aquilo que os movimentos que integramos propõe, existem várias alternativas propostas. Para começar, o estabelecimento de verdadeiras metas (cap) e a eliminação dos mecanismos de mercado (trade) que deturpam essas metas e criam outros problemas de injustiça. Há também a vontade de criar assembleias populares - e que não se pense que isto é qualquer iniciativa desconectada, pois há muito que os movimentos sociais têm trabalhado em rede para apresentar as suas propostas e alternativas (que esbarram sempre contra o mundo opaco e intransponível do business as usual dos burocratas)
Fica o excerto (mais em http://pt.indymedia.org)
As conversações de Copenhaga não resolverão a crise climática. As emissões aumentam cada vez mais, à medida que os mercados de carbono permitem que se pratiquem crimes ambientais e que se lucre com isso. A cimeira da ONU não é mais do que uma nova legitimação do velho colonialismo, novamente na senda do mais procurado dos recursos, desta vez, o direito a poluir. Perante uma grave crise da civilização, oferecem-nos um circo político que brinca à medida dos interesses das grandes empresas.
Em resposta a esta loucura, criou-se um movimento global que luta pela justiça climática e que pretende ir bastante mais além da contestação autorizada. As acções começam a 7 de Dezembro, com um dia internacional de jejum pela justiça climática. Para o dia 11, a Iniciativa Our Climate NOT Your Business apela a acções contra as grandes empresas. Para o dia seguinte, está marcada uma “inundação” pela justiça climática, organizada pela Friends of the Earth International, e uma manifestação, como parte do Dia Internacional de Acção, onde se apela a que haja acções descentralizadas por todo o mundo. Em Copenhaga essa manifestação terá o seu percurso pré-definido pela polícia. E há movimentos que, não querendo cumprir com todas as regras da contestação bem educada, apelam a várias possibilidades de desobediência. O dia 13 é dedicado a atingir o sistema económico, nomeadamente através do fecho do Porto de Copenhaga. No dia a seguir, luta-se pela abolição de fronteiras. A 15 de Dezembro, há acções e manifestações relacionadas com a agricultura. Finalmente, no dia 16, há, por exemplo, a proposta para que se ocupe a conferência da ONU, de forma a que seja transformada numa Assembleia Popular.
Gualter Barbas Baptista